Elomar não esconde sua aversão aos mass media brasileiros, grandes veículos de comunicação do país que, segundo ele, são insuficientes e susceptíveis a deturpações.A entrevista faz parte do trabalho "Música Regional e Indústria Cultural", monografia apresentada para conclusão de graduação do curso Relações Públicas na Facs (Faculdades Salvador), em dezembro de 1994, pelo estudante Fausto Mattos.
P: Como você caracteriza o seu estilo musical?
Elomar: Tem gente que acha que a minha musica é popular, tem gente que acha que é regional, outros acham que é erudita. Minha música não é popular, ela está situada entre o erudito e o regional, pois o regional, quando é puro, tende à universalização. Quando um artista faz uma arte regional, ele faz uma arte para ficar, não para agradar platéias. É quase uma necessidade, ele tem que fazer.
P: Qual o público de Elomar hoje?
Elomar: Desde peão analfabeto até o intelectual e o crítico. Meu público tem um espectro muito longo.
P: Por que sua música encontra tantas dificuldades em ser veiculada pela mídia?
Elomar: Eles acham que o Brasil, por não ser um país de 1º mundo, não tem poeta, nem escritor de ópera. Os donos de orquestra e teatros só confiam no que vem da Europa. Os europeus lançaram no mundo a idéia de que, em países pobres, do 3º mundo, é impossível surgir um bom compositor de óperas. Fizeram isso para preservar seu patrimônio cultural e ecoômico. Eles acham que ópera tem que ser cantada em alemão, francês...
P: Por que os artistas urbanos não recebem com mais facilidade o título de regionais que os urbanos?
Elomar: É um equívoco. Paulinho da Viola e Martinho da Vila são músicos regionais: temática do morro sempre, não sai dali. Mas a música regional, do universo que faço parte, é aquela que não é urbana e que traduz os sentimentos mais ligados à vida campestre: as tragédias, os romances, as dificuldades pela sobrevivência. Via de regra, o que impera é o meteorológico em si, a seca, a enchente, as retiradas.
P: O que você pensa sobre o fenômeno de venda alcançado por essas duplas que se dizem caipiras artistas que se dizem sertanejos, regionais?
Elomar: Eles nào são nada regionais, nem caipiras. É uma música de duplas urbanas, feita por pessoas urbanas, que a mídia viu que dava lucro. É um gênero modista, diferente da arte regional verdadeira, que vem de um espírito verdadeiro. O fato de da música regional estar mais para a erudição do que para o popular provoca a sua difícil assimilação para a maioria das pessoas. Então, ela não daria lucro imediato para os investidores, pois as massas, as turbas urbanas consumidoras de música fácil, nào as compraria.
P: O que aconteceria se a mídia resolvesse pesadamente na música regional?
Elomar: É uma questão para ser estudada, porque, caso os empresários resolvessem isso, seria um tempo mágico que chegasse para nós, pois ela é um elemento educador para as massas. Talvez ela se modificasse, parindo da tese que um compositor regionalista não precisa de rádio, nem de televisão, nem de gravadora para fazer a arte dele. Se algum empresário louco resolvesse investir para que a minha música se popularizasse, eu não acharia bom, não, pois primeiro as massas precisam ser educadas.
P: O que significa produção independente dentro do mercado da música?
Elomar: É interessante porque qualquer compositor pode gravar um disco e mostrar seu trabalho, mesmo a mesmo público pequeno. Tem compositores que jamais seriam convidados para gravarem por uma gravadora – tem muito compositor só de 20 canções – que passaram a ser ouvidos, no mínimo, por 1.000 pessoas. Não ficaram restritos apenas àquele ambiente familiar, fosse sua música boa ou ruim. Até as gravadoras ganharam com isso, pois, como se sabe, elas cobram caro para prensar os discos.
P: Quais as perspectivas que você vê para o futuro?
Elomar: A música regional bela, assim como a música erudita, passam por momentos difíceis. Ao meu ver, a tendência da humanidade é o embrutecimento total, vai chegar um dia em que o pensar humano vai ficar fora de moda. O futuro, com suas reservas, vai ser uma sociedade desintelectualizada. A cultura já está passando a ser uma coisa supérflua.
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